O diário do seu Alvino

Aposentado começou a escrever seu diário em janeiro de 1965 e, desde então, suas memórias são eternizadas em palavras. Os momentos mais marcantes foram registrados em cadernos e posteriormente datilografados por ele. Alvino Saraiva, 70 anos, é uma referência para os filhos e não esconde o amor que sente pela esposa Raquel, com quem se casou há 52 anos. A paixão começou quando ambos eram crianças e, desde então, só aumentou.

“Hoje, dia 5 de janeiro de 1965, eu estou dentro de uma imensa mata, de propriedade do Banco do Estado do Paraná, deitado numa cama construída com dois sacos de colheita, debaixo de um mosquiteiro para evitar os mosquitos e pernilongos, escutando o barulho das águas do Rio São Francisco”.

Foi assim que Alvino Saraiva, hoje com 70 anos, iniciou seu diário há mais de meio século e, desde então, não parou mais de escrever, a não ser em espaços curtos de tempo quando precisou tratar da saúde.

Ele conta que tinha 16 anos quando decidiu registrar seus momentos – bons e ruins – em um diário. Na época, trabalhava para uma firma na Gleba São Jorge, em Matelândia, que hoje faz parte do território do Município de Diamante do Oeste.

Deitado em uma rede às margens do rio, ele começou a escrever seu diário naquele janeiro e, de lá para cá, se passaram 54 outros janeiros sempre com a caneta e caderno à disposição.

“Com o caderninho ia escrevendo, depois passei a escrever num caderno maior e ia escrevendo o que se passava no dia a dia, as saudades que eu tinha, as lembranças, até hoje continuo escrevendo”, conta. Mais tarde, conseguiu comprar uma máquina de escrever e datilografou o diário, que hoje tem mais de mil páginas, sem contar os textos que ainda estão em cadernos.

Seu Alvino trabalhava de cozinheiro para a companhia e nos momentos solitários o caderno e a caneta eram sua companhia. “Fazia o almoço e todos iam para o mato trabalhar e eu ficava sozinho. Devido aos pernilongos deitava na minha cama protegido por um mosquiteiro e ia escrevendo. Tudo o que acontecia de mais importante eu escrevi. Colocava os momentos alegres, os momentos tristes, as minhas lembranças de quando eu vim da Bahia”, relata.

 

História para filhos e netos

 

Seu Alvino diz que nunca pensou em publicar suas memórias, mas deixar um histórico de vida para os filhos e netos. Cada acontecimento marcante na família está lá, descrito com maestria por ele. O dia em que começou a namorar, quando se casou, o nascimento dos filhos e netos, o batizado e até o início dos namoros e casamentos das filhas fazem parte do diário.

“Hoje meus filhos acham muito importante porque tudo o que precisar sobre a vida deles está aqui”, destaca.

 

Raquel: o grande amor

 

Além das cartas que trocava nos tempos de namoro com a jovem Raquel, a grande paixão de seu Alvino, os momentos da linda história de amor ficaram registrados em palavras.

O amor entre os dois começou quando ambos eram crianças, tinham apenas oito anos e moravam no interior da Bahia. Naquela época já trocavam olhares e sorrisos apaixonados. Seu Alvino revela que mesmo com apenas oito anos, já sonhava em ser o marido de Dona Raquel.

Depois de 52 anos de casados, os olhos de seu Alviino ainda brilham quando ele fala e olha para a esposa Raquel. Ele diz que o segredo para manter uma relação com a mesma paixão por décadas é cultivar o amor ser fiel. “Sempre fazer tudo para que esse amor não morra e para o amor não morrer, não acabar, a gente tem que cultivar esse amor, fazer tudo para que esse amor cresça, lembrar-se dos dias difíceis e de felicidade e lembrar que a gente fez um compromisso com Deus de amar na tristeza, na alegria, na doença e na dor”, explica.

Seu Alvino brinca dizendo que quando as mulheres completam 40 anos existem homens que as trocam por duas de vinte. “Eu nunca pensei em trocar ela por ninguém. Queria, inclusive, morrer junto para não sentir a dor da separação, mas depois pensando nas minhas filhas, acho que seria muito triste para os filhos morrer os dois de uma vez só. Então coloco nas mãos de Deus. Seja feita a Tua vontade, seja conforme for melhor para mim, para ela e para os filhos”, afirma.

 

Faria tudo de novo, diz Dona Raquel

 

Dona Raquel, que na próxima quarta feria (25), dia de Natal, completa 70 anos, afirma que se fosse para começar tudo de novo ao lado de seu Alvino ino ela não pensaria duas vezes. “Foi muito bom, muito marcante, muita alegria, Cada ano que passava, quando nascia um filho, depois os netos e agora bisneto. Foi coisa de Deus, a gente não sabe explicar”, fala sobre o amor entre os dois. Ela lembra os tempos de criança quando dava uma passadinha perto de Alvino, dava um sorriso e na troca de olhares revelavam o amor entre os dois.

Acontece que seu Alvino veio para o Paraná ainda criança, em 1961. Os dois ficaram por um bom tempo sem ser ver, mas Dona Raquel mantinha a esperança de que um dia ele retornaria à Bahia. “Deu certo, mas se ele demorasse mais uns três dias não tinha me achado lá”, conta.

É que a jovem Raquel estava de mudança para Paranavaí, no Paraná, para ajudar a cuidar de uma tia que estava doente. A distância encurtou e os dois ficaram mais próximos um do outro.

“Nesse meio de tempo falei com a mãe e o pai dela, pedi para casar no Paraná e eles aprovaram”, lembra seu Alvino. Na época, ele morava em Pérola, mas um dia foi até Paranavaí e voltou de lá com aliança firmada. O casamento aconteceu um ano depois. “Está tudo escrito”, conta seu Alvino

 

Um “engenheiro” autodidata

A simplicidade de seu Alvino revela um homem com profundos conhecimentos e uma sabedoria inigualável. Ele concluiu o Ensino Médio depois de casado, mas construiu verdadeiras máquinas para a época apenas com as lembranças que tinha quando era criança. Seus inventos deixavam as pessoas ao redor de boca aberta.

Em Diamante do Oeste ele construiu sozinho um engenho para moer cana e passou a fazer melado e rapadura, que era distribuído gratuitamente aos moradores que iam até sua casa. “A gente era uma família bem pobre, mas ele nunca teve ambição e ganância por nada”, conta a filha Mônica, que é professora mestre.

A casa onde moravam não possuía energia elétrica, mas eis que um dia o seu Alvino decidiu comprar um liquidificador. Todos ficaram sem entender, mas seu Alvino sabia muito bem o que estava fazendo. Ele arrumou umas engrenagens que com uma roda maior fazia a menor rodar rapidamente e gerar energia. “Um giro da roda grande dava uns 50 da pequenininha e aquela engrenagem fazia o liquidificador funcionar”, conta a filha Mônica.

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Luiz Carlos da Cruz

Jornalista desde 1998 com reportagens publicadas em grandes jornais do Brasil, como a Folha de S. Paulo e Gazeta do Povo. Teve passagens pelos jornais Gazeta do Paraná, O Paraná e Hoje, onde foi editor-chefe, além do portal CGN e Rádio Independência. Fundador dos jornais Boas Notícias e Boa Noite!

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