História de onças

Por Luiz Carlos da Cruz

Onçalina e Oncelma são amigas há alguns anos. Vaidosas, estão sempre desfilando por locais onde possam ser percebidas pelos olhares nada discretos de Onçonildo, o galã da mata que decidiu morar na cidade.
Elas não confessam a ninguém, mas ambas são apaixonadas por Onçonildo, um felino de pelos macios, olhar cativante e um papo pra lá de galanteador. É um verdadeiro Don Juan.
Aventureiro, Onçonildo – que tem fama de “onçarengo” – ouviu falar que em um zoológico do Oeste paranaense havia duas onças-pardas que chegaram ao local ainda adolescentes, em 2016, e que se tornaram oncinhas encantadoras.
– A mata está muito monótona, preciso de novos ares. Por quê não arriscar? – pensou Onçonildo.
Decidido, o bonitão felino calculou a rota e chegou à cidade. Por algumas semanas preferiu ficar escondido em matas urbanas, até descobrir que não estava só. Numa noite fria decidiu fazer uma caminhada pelo Lago Municipal de Cascavel e ficou surpreso com o que viu. Onçalina e Oncelma estavam sentadas olhando a lua refletir no espelho d’água, sem dizer palavra alguma.
– Elas são malucas, não acreditei quando disseram que também viriam para a cidade – balbuciou o felino que não tinha muito simpatia pelas amigas. Achava elas extravagantes demais.
– Vou ter que sair daqui, fugi em busca de liberdade e de nova vida. Quero conhecer outras onças. Essas duas são meio ornitológicas, pois mais parecem peruas – disse consigo mesmo.
Decidido, resolveu encarar a madrugada fria, deixou o medo de lado e enfrentou as luzes das vias urbanas. Tomou todos os cuidados necessários para não ser visto por ninguém, mas logo se deparou com uma avenida movimentada e ficou assustado. Tudo era tão novo.
Tentou pegar um atalho e se deparou com algumas pessoas reunidas em um salão. Não sabia que se tratava de um velório. Achou tudo tão estranho e apressou os passos. Na desabalada carreira assustou uma pessoa que estava do lado de fora. O homem correu para o lado oposto.
– Esses humanos são estranhos, porque correm de um felino tão lindo como eu – disse o galã da mata que decidiu viver na cidade.
Depois disso esqueceu a visita que pretendia fazer ao zoológico, andou por vários locais, mas sempre acabava importunado por humanos. Decidiu retornar ao lago e confuso já não lembra mais de onde veio.
Onçalina e Oncelma provavelmente continuam contemplando a lua, as estrelas e sonhando com Onçonildo. Todos dizem que elas estão na cidade, que ate caçaram umas galinhas no parque ambiental, mas ninguém sabe se é verdade.

 

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Luiz Carlos da Cruz

Jornalista desde 1998 com reportagens publicadas em grandes jornais do Brasil, como a Folha de S. Paulo e Gazeta do Povo. Teve passagens pelos jornais Gazeta do Paraná, O Paraná e Hoje, onde foi editor-chefe, além do portal CGN e Rádio Independência. Fundador dos jornais Boas Notícias e Boa Noite!

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