Eu sempre te espero no cais

Edna Nunes é jornalista em Toledo

Coração aberto, esperto, deserto, te espero no cais. Olhar atento, sedento, desalento, te espero no cais. Boca seca, fala empoeirada, garganta aranhada, apenas te espero e nada mais.

Espero entre os náufragos, barcos, velas, nada mais faço do que alentar minha espera no cais. O mar de saudade é pra mim sempre uma passarela que um dia vai te ver chegar.

Mãos inquietas, modestas, alertas. Aliso a saudade, sinto cicatrizes, embalo o sono de quem comigo te espera voltar. Uma Rainha coberta, deserta, deslocada, desolada que sobreviveu e fugiu apenas para morrer de amor.

Eu dou a mão aos moribundos, salvo todos os desabrigos, alimento os famintos. Curo feridas, estanco sangrias e ofereço minha vida, mas minha esperança mora em reconhecer neles teus traços, caos, abraços.

Quando o cansaço me entorpece, vens e amolece todas as cascas do meu coração. Coberto de neblina e de noite, tão incerto, profundo, fraterno, eterno. Amo-te como amam as loucas, poucas, soltas.

Com os primeiros raios vais embora pela cortina translúcida, rompendo a cristal delicado da taça fina e tinta em que bate meu coração. Fica meu corpo solto, sozinho, louco, revolto. Sigo minha espera no cais.

Nosso castelo frio que se aquece apenas quanto encontram-se nossos corações, descontrolados, desautorizados, amados, sem cais. Cortados pela guerra, que dói tanto quanto a saudade de quem ainda não foi, mas que já poderia voltar.

Sigo rainha, escrava, impostora, presa, livre, feliz e triste. Já não posso servir e beijar seu sorriso, mas sigo te esperando no cais e no caos.

Meu corpo segue livre, meu coração preso naquele pedaço de mundo amadeirado e nublado, cheirando lavanda, amor e sonho.

Quando chegar, beije-me devagar, tire a maresia do meu olhar. Abrace-me com abandono, medo, dono. Enquanto isso, eu e o menino, apenas te esperamos no cais.

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Luiz Carlos da Cruz

Jornalista desde 1998 com reportagens publicadas em grandes jornais do Brasil, como a Folha de S. Paulo e Gazeta do Povo. Teve passagens pelos jornais Gazeta do Paraná, O Paraná e Hoje, onde foi editor-chefe, além do portal CGN e Rádio Independência. Fundador dos jornais Boas Notícias e Boa Noite!

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