É preciso falar sobre o racismo!

Luiz Carlos da Cruz é jornalista

Não é deixando de falar sobre o tema, como defendem muitos “branquelos” que amam espalhar, sempre no dia 20 de novembro, um antigo vídeo do ator norte-americano Morgan Freeman, minimizando o debate racial, que o racismo deixará de existir. É preciso falar sobre racismo, sim! E com urgência! Não falar de racismo não vai fazer o crime desaparecer.

O racismo no Brasil é estrutural e intrínseco. Muitas pessoas são racistas sem perceber, ao julgar comportamentos, antecipar opiniões sobre negros ou simplesmente ignorá-los.
Cresci ouvindo piadinhas de “preto”, mas confesso que elas nunca me abalaram. Quando era chamado pelos coleguinhas de “chupim”, “saci de duas pernas”, “rolo de fumo”, simplesmente não reagia. Fugia das provocações estudando e praticando leitura. Cheguei ao absurdo de ouvir que “negro não tem alma”. Muitas piadas eram feitas sob o olhar silencioso das professoras brancas da época, sem generalizar, claro.
E assim cresci sem me importar com a pequenez das pessoas que deliravam em gargalhadas fazendo piadinhas. Algumas tentavam ser mais cortês e só pioravam as coisas. “Ele é negro, mas é muito inteligente”. Cansei de ouvir também que eu era “negro, mas de alma branca”.
E isso persiste até agora. A elite branca de olhos azuis, verdes, ou da cor que seja, ainda torce o nariz para ascensão da negritude. Recentemente estava, junto com um colega de trabalho, em um associação de classe que reúne os maiores PIBs de Cascavel. Um grande empresário da cidade perguntou ao colega quem era o seu “chefe” direto. Percebi o ar de desconfiança e negação quando o colega apontou para mim dizendo que era eu. Depois, não sei se por remorso, o empresário trocou algumas palavras comigo antes de sair.
Há alguns anos, estava em Toledo na casa da minha irmã que já faleceu. Era um domingo e acontecia um churrasco que reunia várias pessoas, boa parte eu nem conhecia. Logo após o almoço me despedi do pessoal e um senhor bem simpático disse que era cedo e que eu deveria aproveitar o domingo. Respondi que iria trabalhar ainda naquela tarde. Ele me perguntou onde eu trabalhava e respondi que era em um jornal da cidade. Foi quando eu percebi o quanto as pessoas são racistas, até mesmo sem querer. O homem simpático foi logo perguntando e tentando adivinhar minha profissão. “O que você faz lá, é entregador?” questionou ele, como se entregar jornal fosse a única tarefa que um negro pode fazer em uma empresa de comunicação. Respondi que eu era o editor-chefe e ele me olhou com cara de espanto.
O racismo faz parte do dia a dia e não falar sobre ele só estimula casos como esses recentes que ocorreram com a vereadora negra eleita em Joinville e do homem morto por seguranças de um supermercado em Porto Alegre.
Nesta semana, também vi comentários acusando uma jornalista de ser racista por ter colocado na manchete a informação de que a primeira vereadora negra foi eleita no último domingo em Cascavel. Enquanto não houver consciência humana, precisamos não de apenas de um, mas de 365 dias de consciência negra. E os avanços dos negros precisam estar estampados em manchetes jornalísticas, sim! Falar sobre o racismo é não permitir que um passado sombrio da nossa história caia no esquecimento e volte de forma sutil, como acontece atualmente.

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Luiz Carlos da Cruz

Jornalista desde 1998 com reportagens publicadas em grandes jornais do Brasil, como a Folha de S. Paulo e Gazeta do Povo. Teve passagens pelos jornais Gazeta do Paraná, O Paraná e Hoje, onde foi editor-chefe, além do portal CGN e Rádio Independência. Fundador dos jornais Boas Notícias e Boa Noite!

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