Aninha, Maitê e o buquê de rosas

Sentada no meio fio com um giz entre os dedos, Aninha rabiscava na calçada o desenho de um gato, mas que pelas orelhas empinadas e os dentes pontudos ficou muito mais parecido com um coelho.

– Está comemorando a Páscoa em outubro? – provocou Maitê, a irmã mais velha.

– Desenhei meu Félix, o gatinho mais bonito do planeta – respondeu Aninha deixando de lado a provocação.

– Félix é nome de gente e não de gato. E isso mais parece um coelho. Aprendeu desenhar com quem? Com o Maurício de Souza? – Continua Maitê.

– Sai daqui sua falsiane, se não entende de arte fique no seu lugar.

– Arte! Sei…

Como todas as irmãs normais, Aninha e Maitê passam o dia inteiro se bicando, mas não se desgrudam. Depois de desdenhar do desenho, Maitê também se senta no meio fio e juntas observam uma borboleta que pousou em um buquê de rosas que havia caído de uma lixeira.

– Que borboleta bonita, ela está abrindo e fechando as asas lentamente – comenta Maitê.

– Olha! Quando ela movimenta as asas aparece o desenho de um coração se abrindo – exclama Aninha.

– Deve ser o coração despedaçado da pessoa que recebeu esse buquê de rosas e jogou fora com as flores ainda bem vivas – responde Maitê.

– Acho que foi a moça do apartamento 71, ontem eu a vi chorando no parquinho do condomínio – revela Aninha acrescentando que pouco antes uma motocicleta de uma floricultura estava em frente ao prédio.

– Como alguém pode não se encantar com flores a ponto de descartá-las? – questiona Maitê.

– A moça do 71, ela transfigura amargura, parece que vive cheia de ódio, melhor chamá-la de bruxa do 71 – diz Aninha.

– Não devemos falar mal de quem não está por perto para se defender – repreende a irmã mais velha.

– É verdade, isso é deselegante – responde a pequena.

Cinco minutos depois, um caminhão passa recolhendo o lixo do dia no bairro. Entre os três homens que recolhiam as sacolas de resíduos um deles chamou a atenção. Era um moreno alto, com um boné azul que contrastava com o uniforme laranja. Assoviava alegremente a canção “Detalhes”. Ao ver o buquê de flores caído na calçada seus olhos brilharam e mesmo falando baixinho com ele mesmo foi possível ouvi-lo.

– São perfeitas! Que lindas! A Márcia vai adorar! – disse ele abraçando as rosas.

Emocionadas, Aninha e Maitê se olharam e exclamaram juntas:

– A Márcia deve ser muito feliz!

Depois disso, a borboleta que também apreciava as rosas fez um curto voo e sentou-se sobre o desenho do gato que parecia um coelho. Abriu suas asas e por um longo período ficou imóvel expondo os pigmentos coloridos que formavam a figura de um coração. As duas olharam fixas no inseto e perceberam que dentro da asa-coração havia outro desenho, que lembrava a letra “M”. Novamente Aninha e Maitê se olharam. – É um M, de Márcia – disse Maitê.

(Luiz Carlos da Cruz – Cascavel 2018)

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