A janela de Antônio

Luiz Carlos da Cruz é jornalista em Cascavel

Às vezes acordava cedo, lá pelas 6 horas, abria a cortina só para olhar a casa do outro lado da rua. Ele estava sempre lá! Debruçado sobre a janela contemplando o nascer do sol. O grosso cigarro de palha aparentemente apagado entre os dedos e seu estado estático me causavam certo incômodo. O que faz ele o tempo todo naquela janela?

Saio para o trabalho e lá está ele, retorno no fim da tarde e o homem continua no local. Isso me intriga!

Depois de muito tempo, descobri o seu nome: Antônio. Escutei alguém gritando de dentro da velha casa de madeira – “Vai dormir, Antônio! Sai dessa janela!”

Confesso que muitas vezes achei que Antônio não fosse real. Imaginava ser ele uma espécie de espantalho urbano para espantar sei lá o quê. Ele está sempre imóvel, na mesma posição. Quantas vezes passei em frente a casa e disse “bom dia!” Ele nunca me respondeu.

Só tive certeza que Antônio não era um boneco quando certa vez o avistei levando a mão na boca para tossir, talvez pelo efeito do cigarro de palha que está sempre entre seus dedos, mas nunca vi o homem fumando. Minha curiosidade sempre foi saber o que Antônio via de sua pequena janela.

Ontem não vi Antônio na janela e fiquei preocupado. O que teria acontecido com ele? Então fiquei debruçado na minha janela para ver se ele apareceria, mas não apareceu. Foi então que descobri os segredos de Antônio.

Sim, da minha janela comecei a observar coisas que até então não percebia. Bem a frente do meu nariz um jardim florido dentro do meu próprio espaço. As belas flores foram plantadas e cuidadas por meu pai. Em uma delas – desculpem-me, eu aprecio flores, mas não as classifico por nomes, só conheço rosas – havia uma borboleta de asas abertas. Os detalhes me encantaram. Parecia uma pintura que ficava ainda mais bonita a cada bater de asas.

Olhei mais ao longe e contemplei um jovem casal de namorados sentados no meio-fio olhando fixamente um para outro. Eles estavam apaixonados, pareciam não encontrar palavras para expressar o amor e, por isso, apenas se olhavam. – Que coisa linda –, pensei comigo.

Percebi os passos lentos da menina que com uma mochila nas costas seguia para a escola toda feliz, brincando com um jogo da amarelinha imaginário. Ela estava feliz!

A felicidade do casal de namorados e da menina de tranças que pulava a amarelinha invisível mexeu comigo. Também fiquei feliz! E quanto mais feliz eu estava, mais coisas belas eu percebia da minha janela.

O entardecer chegou e eu avistei um belo pôr do sol como nunca tinha visto antes. Imaginei o quanto lindo seria o nascer do sol, se eu estivesse do outro lado, na janela de Antônio. Até o pássaro que aterrissou meio desengonçado na cerca do vizinho me encantou. Com o bico ele mexia na asa esquerda, parecia que algo estava incomodando. – Meu Deus, pensei comigo – como não parei para observar isso antes.

A noite chegou e eu me recusava a deixar a janela. Seria uma indelicadeza deixar a lua tão sorridente sozinha na imensa escuridão.

Hoje, a janela de Antônio já não me intriga mais! Eu tenho a minha própria janela.

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Luiz Carlos da Cruz

Jornalista desde 1998 com reportagens publicadas em grandes jornais do Brasil, como a Folha de S. Paulo e Gazeta do Povo. Teve passagens pelos jornais Gazeta do Paraná, O Paraná e Hoje, onde foi editor-chefe, além do portal CGN e Rádio Independência. Fundador dos jornais Boas Notícias e Boa Noite!

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