A Grande Família: uma inspiradora história de ação social

Eles vivem em harmonia em uma casa simples, mas muito bem organizada no Bairro Tarumã, em Cascavel. Dizem que são uma grande família e retrucam qualquer pessoa que ousar chamar o espaço de abrigo. Uma decisão judicial, no entanto, amedronta as 33 pessoas que vivem há anos sob o mesmo teto. A Justiça entendeu que o local é um asilo irregular e quer o fim do trabalho social

“Desculpe-me lhe dizer, mas primeiramente não é um abrigo isso aqui. Aqui é um lar e para mim – tem um ditado que diz assim: ‘Deus tira os anéis, mas deixa os dedos’. A família me abandonou, me trouxe aqui pensando que eu iria ficar por aqui jogada sem família. O que aconteceu aqui? Constituiu-se uma nova família. Nós que usamos esse lar nos tornamos todos os irmãos e ela [dona Soeli] nós consideramos como mãe, então não é um abrigo, é um lar”.

Foi assim, levando “um pito” da simpática dona Irma Graeff, 70 anos, por chamar a casa onde ela mora há seis anos de abrigo, que iniciamos a entrevista (veja a entrevista no fim do texto).

O lar ao qual a Dona Irma se refere é a casa da desprendida Soeli Cardoso de Quadros, que há 25 anos cuida de pessoas abandonadas pelas famílias. Atualmente, são 33 pessoas que convivem na casa localizada no Bairro Tarumã, região norte de Cascavel. Muitas dessas pessoas são deficientes físicas e que, por algum motivo, a família desistiu de cuidar.

“A gente esta fazendo uma coisa que a gente gosta, que adoro fazer, vivi isso vida inteira. Trabalhei muito tempo na escola da APAE, então você vai agarrando amor. Vem um e a gente em dó de deixar na rua, A maioria não tem família,  a maioria nunca casou”, conta a dona Soeli.

No espaço há pessoas que eram adotivas, mas quando os pais morreram foram desconsideradas e abandonadas pelos irmãos e deixadas na casa. Ali encontraram uma nova família. “Meu coração não sabe dizer não”, diz dona Soeli.

 

Início dos trabalhos foi com familiares

Há 25 anos, após deixar o trabalho na APAE onde atuou por 20 anos, dona Soeli passou a cuidar de familiares. “Depois vieram vizinhos e um foi falando para o outro e mais pessoas vieram”, conta Adilson Kohls, filho da Soeli e que auxilia no trabalho social.

Hoje, a casa abriga pessoas de várias cidades da região que foram deixadas no local. Quando alguém precisa de médico ele e dona Soeli levam até a unidade de saúde, hospital ou laboratório para exames. As enfermeiras também vão até a casa para acompanhar o estado de saúde das pessoas que ali vivem. “Os familiares já deixaram aqui por não terem condições de cuidar”, afirma.

 

Justiça manda fechar a casa

O trabalho social desenvolvido pela dona Soeli e dezenas de voluntários, no entanto, corre o risco de ser fechado por determinação judicial. O Ministério Público (MP) moveu uma ação e acusou dona Soeli de trabalhar de forma irregular.

O MP diz que a casa atual sem licença sanitária, alvará, autorização do Corpo de Bombeiros e estruturas físicas adequadas. A ação é de 2013 e a sentença foi proferida no fim do mês passado. A sentença determina A sentença determina que a prefeitura providencie a transição dos idosos para ambiente familiar ou para instituição adequada em 90 dias.

As pessoas que moram no local, no entanto, não querem sair de lá e estão apreensivas com a decisão judicial. Algumas ensaiaram até uma greve de fome, mas foram convencidas pela dona Soeli e não levar o propósito adiante.

Várias pessoas estão se mobilizando, inclusive uma comissão formada por advogados, para pedir ao Ministério Público mais prazo para as adequações que já estão em andamento. “Eu não estou fazendo nada de errado, estou fazendo o que gosto de fazer. Espero que não aconteça nada demais”, diz dona Soeli.

A maior parte das pessoas mora no local há anos, a que está há mais tempo vive na casa da dona Soeli há 18 anos. Outras estão há mais de dez anos no espaço.

Ajuda de voluntários

A casa é mantida pelos familiares das pessoas que deixaram as pessoas local – mas nem todos contribuem – e por voluntários que auxiliam com doações. “Tem lugar pra todo mundo, todo mundo está bem abrigado, está tudo bem cuidado, ninguém está dormindo no chão, ninguém está mal cuidado. Tem a mesa para eles comerem, tem comida sobrando. Graças a Deus eu tenho muitos amigos. Tem bastante voluntário que me ajuda”, conta a dona Soeli.

 

“Tem que dar um título de honra ao mérito”

Voltamos a falar da dona Irma Graeff, a simpática senhora que deu uma “bronca” no repórter que chamou o local de abrigo. Ela está no local há seis anos e diz estar “pasma” com a história de fechamento. “Ao invés de fechar aqui eles deveriam dar um título de honra ao mérito a ela”, afirma.

Depois de sofrer três Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC), ela tem limitação e anda em uma cadeira de rodas. Dona Irma afirma que encontrou no local sua “verdadeira família”.

“A família biológica não quis saber de trocar fralda, não quis saber de me transportar pra lá e pra cá e aqui aconteceu o contrário. Eu encontrei uma irmã e vários irmãos. Isso aqui é tudo uma irmandade, nós nos consideramos, aqui um é amigo do outro, um desabafa com o outro, nos ajudamos mutuamente”, diz dona Irma, que durante muitos anos trabalhou na Secretaria de Segurança Pública do Paraná.

Ela fez questão de agradecer algumas entidades que auxiliam nos trabalhos, como o grupo de motociclistas Minhocas do Asfalto, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o grupo católico Lareira, o grupo espírita São Francisco de Assis e a integrantes do Rotary Club que recentemente fizeram uma visita. “Temos toda a assistência aqui, a assistência que nos faltou na família biológica recebemos aqui”, declara.

Poeta, ela fala com brilho nos olhos sobre a decisão judicial. “A caneta pode até ser pesada em algumas mãos, como a de promotores, juízes e alguns mais, mas nós temos que temer somente a caneta do Deus ai todo poderoso, aquela, minha gente, pesa, e temos que ter cuidado porque quando ele assina não tem mais jeito”.

 

“Mais do que irmãos”

 

Valter José Mariano, 43 anos, uma das pessoas que vivem no local conta que sua irmã disse que pretende levá-lo morar com ela a partir de fevereiro, mas ele não está disposto a deixar a casa da dona Soeli. “Estou bem tratado, combino com todo mundo, não tem por que sair daqui”, diz.  Assim como os demais, ele diz que encontrou uma nova família. “Não são meus irmãos e irmãs, mas são mais do que irmãos e irmãs. Na casa da minha irmã vou ter que fazer novos amigos. Aqui está tudo pronto não precisa se preocupar”, declara.

 

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Luiz Carlos da Cruz

Jornalista desde 1998 com reportagens publicadas em grandes jornais do Brasil, como a Folha de S. Paulo e Gazeta do Povo. Teve passagens pelos jornais Gazeta do Paraná, O Paraná e Hoje, onde foi editor-chefe, além do portal CGN e Rádio Independência. Fundador dos jornais Boas Notícias e Boa Noite!

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