Cascavel vai preservar nascentes, mas desestimular consumo de água

Escola de governo tratou exclusivamente das contaminação das nascentes (Divulgação/Secom)

As nascentes existentes no perímetro urbano de Cascavel serão preservadas da maneira correta. Contudo, o uso das águas das fontes não pode mais ser mantido da forma como vinha sendo consumido pela população, ou seja, sem tratamento ou ao menos um gesto caseiro simples como a fervura da água antes do consumo para se evitar a contaminação por bactérias que podem causar sérias doenças, como diarreia, hepatites ou infecção urinária, uma vez que são impróprias para o consumo.

Esta foi a conclusão da Escola de Governo especial desta manhã (11), que teve o objetivo de apresentar à sociedade uma resposta do governo na presença de autoridades no assunto “qualidade da água”, desde a celeuma levantada a partir da investigação que surgiu casualmente a partir da apuração das causas do acidente que vitimou uma criança no Centro de Vivência no Bairro Floresta. A queda do painel levou à constatação de que há fontes na cidade com mais de mil metros de distância dos locais de captação da água pela população e de que em 100% delas a água é imprópria para o consumo há anos.
“A água tem uma simbologia de vida muito forte e a população tem uma crença muito grande na potabilidade das fontes, então temos que nos posicionar por uma questão de saúde pública”, disse o secretário de Meio Ambiente, Juarez Berté, que apresentou à sociedade os laudos das análises das fontes que foi realizado pela BrasÁgua em 2015 e 2016, os quais já apontavam a contaminação por bactérias, e que nunca vieram a público. “Diante disso, conversamos com o prefeito Leonaldo Paranhos para saber o que fazer e decidimos que precisávamos dar uma resposta à sociedade”.
Anos de contaminação
O empresário responsável pela BrasÁgua, Renato Notari, contou durante a Escola de Governo que a empresa foi contratada pelo Município nos anos de 2015 e 2016 para fazer a análise da qualidade da água das fontes e, apesar de constatar a contaminação, fez um trabalho de forma consciente e ético em não divulgar os resultados à população, porque a responsabilidade da empresa era a de dar ciência ao Poder Público, o que foi feito.
“O Poder Público foi informado. Em situações particulares, analisamos a água e, em caso de contaminação, alertamos à Vigilância Sanitária. Neste caso das fontes chegamos a alertar o Município quando do lançamento do Programa Cidade das Águas de que jamais deveria  ser distribuída água sem tratamento”, disse o empresário que também afirmou ter alertado funcionários do Meio Ambiente e vereadores sobre a falta de potabilidade da água coletada pela população nas fontes do perímetro urbano de Cascavel.
Para Notari, as fontes ainda podem continuar existindo, desde que tratada a água. Ele atribui o número de pessoas atendidas nas unidades de saúde ao uso da água contaminada. “Pode continuar a Cidade das águas? Pode. É questão de se observar a legislação, como nunca foi feito. São quase 15 anos que se passaram e não seguiram as recomendações. Não tivemos a infelicidade de virar notícia ainda, mas é questão de observar a quantidade de gente que frequenta os postos de saúde. Eu, por exemplo, tomo água da Sanepar, porque eu sei que está descontaminada. O que se sente é que falta preocupação com fiscalização do que está sendo feito. Tem muita gente fazendo sem saber o que está sendo feito. Com relação às fontes sabemos que elas podem continuar. Basta investir nos cuidados.Tem um custo e não é elevado. É menor do que o valor que foi gasto para construir os painéis que agora estão sendo demolidos. Pode ser que algumas delas não podem ser utilizadas, mas a grande maioria pode ser recuperada se bem tratada”, sentenciou Notari, para quem “qualquer água que é distribuída, inclusive de poço artesiano, não pode chegar à população sem ser tratada”.
Para a Sanepar, água da fonte tem de ser tratada
Renato Bueno, gerente geral da Sanepar e engenheiro químico, explicou que a empresa responde ao Ministério da Saúde na gestão da qualidade da água. Durante a Escola de Governo especial de hoje disse que existe uma necessidade histórica de se distribuir água tratada à população como uma maneira sanitária de se prevenir diarreia e hepatites, entre outras doenças desde o século 19.
Renato lembrou que quando chegou em Cascavel, ainda na década de 1988, o Município contava com 88% de abastecimento com água tratada e grandes índices de diarreia. Hoje a cidade tem 100% de abastecimento e um contrato de exclusividade de distribuição de água com a Companhia, o que a obriga por lei a fazer o controle de qualidade da água. São 2 mil análises mensais na rede de distribuição atualmente.
“Como cidadão sempre disse que era um atraso deixarmos as fontes em uso da população, mas direto ouvimos da população em nossas palestras que as pessoas só bebem água da fonte, o que nos assusta, pois é grande o número de doenças nos postos de saúde causadas por água contaminada. Sabemos que água aceitável deve ter 0 presença de coliformes fecais e a Sanepar tem a obrigação de cumprir a legislação e o contrato assumido com o Município. Toda água que sai de mina ou fonte deve ser tratada, pois uma fonte de água in natura representa risco. Para nós, como sanitaristas, água da fonte tem que ser tratada. Tem que ser feita a desinfecção. O cloro tem de ser controlado já na saída. Nas nossas estações de tratamento não pode sair água sem cloração, por questões de segurança”.
Situação preocupante
Ao fazer o encerramento da Escola de Governo, o vice-prefeito e secretário de Serviços e Obras Públicas, Jorge Lange, disse que a situação é preocupante diante da fala dos especialistas no assunto, “pois ambos concluíram que apesar dos alertas desde o início da implantação das fontes, a água jamais deveria ter sido oferecida à população sem o devido tratamento. Além disso, a Sanepar é única  responsável pelo fornecimento”.
Jorge ainda lembrou “que temos números da Saúde que não podemos afirmar, mas tivemos 15 mil casos de diarreia no ano passado e neste ano já são 6 mil. Não sabemos se estão relacionados ao  uso da água das fontes, mas nos fazem pensar nisso. Além disso, uma morte na fonte nos fez chegar a este problema da qualidade da água e, a partir disso, chegamos aos laudos de 2015 e 2016. Talvez as pessoas que frequentam as fontes estão indo para as unidades de saúde por adquirir e transmitir doenças”.
“Vamos preservar estas fontes, fazer com que sejam preservadas de maneira correta. Vamos salvar, mas desestimular o uso de maneira incorreta, a não ser que se opte por tratar esta água nas fontes”.
Fundetec faz controle
A partir deste ano a Fundetec, com seu laboratório físico-químico,passou a fazer a análise das águas das fontes e constatou a contaminação de praticamente 100% delas, a partir da implantação do primeiro Território Cidadão, no Bairro Cascavel Velho, conforme explicou o presidente da Fundetec e coordenador do programa, Alcione Tadeu Gomes.
 (Secom)

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Luiz Carlos da Cruz

Jornalista desde 1998 com reportagens publicadas em grandes jornais do Brasil, como a Folha de S. Paulo e Gazeta do Povo. Teve passagens pelos jornais Gazeta do Paraná, O Paraná e Hoje, onde foi editor-chefe, além do portal CGN e Rádio Independência. Fundador dos jornais Boas Notícias e Boa Noite!

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